quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O uso do Computador com recurso didático

Texto extraído no seguinte site:

O uso do computador como recurso didático

Os dias do atual sistema educacional já estão contados, pois o mesmo é um espelho do sistema de produção industrial em massa, no qual as crianças passam de uma série a outra, numa seqüência de matérias padronizadas como se fosse uma linha de montagem industrial. Estamos vivendo numa era de transformações que mudarão a política e a economia do futuro.

O mundo tem mudado nas últimas décadas, mas a educação continua essencialmente inalterada: continuamos a confundir um amontoado de fatos com o conhecimento; muitos professores insistindo em permanecer em posição frontal diante de suas classes, transmitindo seus poucos conhecimentos. Como alavancar a escola desta posição estática e ajudá-la a se transformar em um ambiente "inteligente", criado para a aprendizagem, um lugar rico em recursos, um lugar onde os alunos possam construir os seus conhecimentos segundo os estilos individuais de aprendizagem que caracterizam cada um; com o uso cada vez menor do livro texto e do quadro - negro e o aumento do uso de novas tecnologias de comunicação?

Na tentativa de resolver muitos destes problemas, muitos educadores têm enfatizado o uso dos recursos tecnológicos, como uma das possibilidades para auxiliar os professores a superarem esses obstáculos na sua prática pedagógica. Outros, espantados com o avanço da tecnologia no processo de ensino - aprendizagem, temem serem substituídos pela máquina e acabam produzindo um discurso para convencerem seus pares a rejeitarem tal auxílio.Entre estes dois extremos, encontra-se uma gama de opiniões, inquietudes, pontos de vista polêmicos, acertos e desacertos que têm caracterizado a discussão sobre o uso dos recursos tecnológicos na educação nestes últimos vinte anos.

O computador e a aprendizagem

A aprendizagem humana é um fenômeno complexo e está intrinsecamente relacionada à associação de conhecimentos adquiridos com os novos conhecimentos. A partir das contribuições de teóricos como Piaget, Vygotsky, Paulo Freire sobre a importância do processo de interação, foi possível encontrar argumentos fortes para superar a visão behaviorista de que a aprendizagem é simplesmente mudança de comportamento.

Segundo uma perspectiva epistemológica Piagetiana, a aprendizagem é uma das formas de aquisição de conhecimentos, que pode gerar uma construção de conhecimento ou não. O que diferencia esta forma das outras é a abordagem dialética defendida por esta teoria, ou seja, a construção do conhecimento só pode ser concebida distintamente da aprendizagem, “se a análise dos processos cognitivos se der a partir de uma visão dinâmica, e de uma visão da realidade como uma rede de relações que envolvem esses processos” (Martins, 2000, p. 5). E isto só é possível a partir da idéia de interação de Piaget que defende que a compreensão do que ocorre, quando o ser humano adquire conhecimentos, deve ser buscada nos instrumentos de mediação entre sujeito que conhece e o objeto a ser conhecido. Assim, nesta perspectiva, a ação é o ponto de partida para a aquisição do conhecimento, uma vez que não conhecemos o que está fora de nós, porque agimos sobre o que nos rodeia.

Quando o sujeito que conhece age sobre um objeto a ser conhecido, este objeto, no mínimo, oferece uma resistência a tal ação, exercendo uma ação sobre o sujeito. Assim toda ação se torna uma interação. “É uma ação que se dá entre dois pólos (o sujeito e o objeto). Deste modo, o conhecimento, segundo Piaget, é fruto de uma ação concomitante do sujeito que conhece e do objeto a ser conhecido”.

A teoria de Vygotsky segue a linha Histórico-Social ou Histórico-Cultural, que considera que o desenvolvimento da criança é definitivamente um produto da influência e combinação de fatores orgânicos pessoais (internos) e de variáveis proporcionadas pelo ambiente em que ela vive, isto é, o desenvolvimento cognitivo ocorre dentro de um determinado contexto social. O sujeito e sua colaboração/interação com o ambiente e com seus pares é que constrói seu próprio conhecimento. Os estudos de Vygotsky destacam a linguagem culturalmente desenvolvida, atribuindo um grande valor intelectual à interação entre pares, reconhecendo que pode existir uma discrepância entre a solução individual e a forma social de se resolver um problema. Neste ponto, esses estudos contrastam com a visão de Piaget que, por sua vez, apresenta a criança como construtora individual de seu próprio conhecimento, que expressa, através da linguagem, sua compreensão interna, desenvolvida sem a intervenção de fatores sociais externos.

Um ambiente de trabalho constituído por computadores é diferente e apresenta oportunidades para que esta colaboração aconteça. O ambiente computacional proporciona um cenário para uma mudança qualitativa nas zonas de desenvolvimento proximal do aluno. A colaboração pressupõe uma tarefa mútua na qual os parceiros trabalham em conjunto para produzir algo que nenhum deles poderia ter produzido individualmente. Dentro de um ambiente computacional, a interação entre pares, permeada pela linguagem (humana e da máquina), potencializa o desempenho intelectual porque força os indivíduos a reconhecer e coordenar perspectivas conflitantes de um problema, construindo um novo conhecimento a partir de seu nível de competência que está sendo desenvolvido dentro e sob a influência de um determinado contexto histórico-cultural.

O uso do computador como recurso didático

Para D’Ambrósio (1999 p.5), educação é ação. Um princípio básico é que toda ação inteligente se realiza mediante estratégias que são definidas a partir de informações da realidade. Portanto, a prática educativa, como ação, também estará ancorada em estratégias que permitem atingir as grandes metas da educação. As estratégias, por sua vez, estão apoiadas em ferramentas, recursos que viabilizam sua realização. Mais do que nunca, os professores estão recorrendo à tecnologia. Ao contrário do senso comum de que informática facilita o processo de ensino-aprendizagem, o computador dificulta o processo, podendo enriquecer ambientes de aprendizagem, onde o aluno, interagindo com os objetos desse ambiente, tem chance de construir o seu conhecimento. O conhecimento não é passado para o aluno; ele não é mais instruído, ensinado, mas construtor do seu próprio conhecimento. Assim o paradigma instrucionista vai sendo substituído pelo paradigma construcionista onde a ênfase está na aprendizagem, na construção do conhecimento, ao invés de estar no ensino, na instrução.

Segundo Valente (1998), o computador tem sido usado na educação como máquina de ensinar que consiste na informatização dos métodos de ensino tradicionais; o professor implementa no computador uma série de informações que devem ser passadas ao aluno, na forma de um tutorial, exercício e prática ou jogo. Desta forma o computador não contribui para a construção do conhecimento, pois a informação não é processada, mas simplesmente memorizada. A abordagem denominada por Papert de construcionismo permite que o aprendiz possa construir seu conhecimento através do computador. Segundo essa concepção, a construção do conhecimento só acontece quando o aluno constrói um objeto de seu interesse, um texto, um programa, etc. Para Valente (1998), a diferença entre a teoria de Piaget e o construcionismo de Papert é que o conhecimento é construído através do computador, o computador é utilizado como uma ferramenta de aprendizagem.

Nessa perspectiva, Papert propõe a realização do ciclo descrição – execução – reflexão – depuração – descrição, que é de extrema importância na aquisição de novos conhecimentos. Segundo Valente (1998), diante de uma situação problema, o aprendiz tem que utilizar toda sua estrutura cognitiva para descrever para o computador os passos para a resolução do problema, utilizando uma linguagem de programação. A descrição da resolução do problema vai ser executada pelo computador. Essa execução fornece um “feedback” somente daquilo que foi solicitado à máquina. O aprendiz deverá refletir sobre o que foi produzido pelo computador; se os resultados não corresponderem ao desejado, o aprendiz tem que buscar novas informações para incorporá-las ao programa e repetir a operação.

A introdução das tecnologias na educação, segundo uma concepção construcionista, tem provocado o questionamento dos métodos e práticas educacionais uma vez que as mesmas devem ser utilizadas como catalisadores de uma mudança do paradigma educacional. Um paradigma que promova a aprendizagem ao invés do ensino, que coloque no centro do processo o aprendiz, que possibilite ao professor refletir sobre sua prática e entender que a aprendizagem não é um processo de transferência de conhecimento, mas de construção do conhecimento, que se efetiva através do engajamento intelectual do aprendiz como um todo.

Tais reflexões devem levar a um redimensionamento de sua prática, passando de uma prática fundamentada no paradigma instrucionista para o construcionista. A utilização das tecnologias na educação não deve estar associada a um modismo ou à necessidade de se estar atualizado com as inovações tecnológicas. Esses argumentos servem para maquiar a utilização do potencial pedagógico do computador na educação, pois não contribuem para o desenvolvimento intelectual do aluno. Seu objetivo deve ser o de mediar a expressão do pensamento do aprendiz, favorecendo os aprendizados personalizados e o aprendizado cooperativo em rede.

Uma sala de aula Equipada com computadores, TV, vídeo, aberta e livre ao diálogo, pode se transformar em uma oficina de trabalho, a partir do momento em que os estudantes forem desafiados a buscarem soluções para os problemas em colaboração entre os pares e com as facilidades disponíveis pelas tecnologias. Isto pode fazer com que os estudantes ganhem mais confiança para criarem livremente, sem medo de errar. Assim a sala de aula pode gerar uma grande equipe para produção e troca de idéias, um ambiente diferente do da sala de aula convencional, onde a fala e a projeção do pensamento passam a ter papel fundamental no processo de criação e na aplicação dos conteúdos adquiridos formalmente.

*Fábia Magali Santos é pedagoga especialista em Alfabetização, Informática Educativa e Educação a Distância. Atualmente é professora de Tecnologias Educacionais na Universidade Estadual de Montes Claros e coordenadora de Ensino Superior e da UAB.

Referências bibliográficas

CARVALHO, Mauro Giffoni. Piaget e Vygotsky: as contribuições do interacionismo. Dois Pontos. Belo Horizonte, n. 24, p 26 – 27, 1996.

D’AMBRÖSIO, U. Educação para uma sociedade em transição. Campinas, SP: Papirus, 1999

MARTINS, O. B.; POLAK, Y. N. S. (org) Fundamentos e políticas de educação e seus reflexos na educação a distância. In: Curso de Formação em Educação a Distância. UniRede. Brasília: s.e. s.d

VALENTE, J. A. Porquê o computador na educação. In: ProInfo.



terça-feira, 17 de agosto de 2010

Educação e Tecnologiia

A essência da inclusão digital está na universalização e democratização das informações e em promover mudanças no melhoramento da qualidade do padrão de vida de uma sociedade ou comunidade. Neste contexto, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), em especial a Internet, são meios potenciais e fundamentais para a socialização da informação e disseminação irrestrita do conhecimento.
Nas escolas, esta discussão perpassa pela preocupação com a apropriação das Novas Tecnologias do Conhecimento (NTCs), principalmente do computador, pelos educadores e as contribuições que estas podem trazer para o processo de ensino e aprendizagem. Segundo Vilares e Silva (2006, p.271) “as tecnologias de informação e comunicação trouxeram uma nova maneira de ver e apreender o mundo, assim como transformaram as formas de se construir o conhecimento e de se ensinar e aprender”.
Os ambientes escolares precisam das tecnologias digitais para o melhoramento de seus processos formativos. Esta contribuição não deve implicar em mudanças minimalistas, apenas visuais ou estéticas, adornos ao processo ensino-aprendizagem, mas na produção de resultados satisfatórios no desenvolvimento de aprendizagens cada vez mais ricas e significativas. Moran afirma nesse contexto que:
Não se trata mais de privilegiar a técnica de aulas expositivas e recursos audiovisuais, mais convencionais ou mais modernos, que é usada para a transmissão de informações, conhecimentos, experiências ou técnicas. Não se trata de simplesmente substituir o quadro-negro e o giz por algumas transparências, por vezes tecnicamente mal elaboradas ou até maravilhosamente construídas num PowerPoint, ou começar a usar um data show. (2000, p. 143).
Vale destacar que o centro do processo ensino-aprendizagem é o aluno, e a comunicação entre este e o educador deve proporcionar motivações para que haja um sentimento de liberdade e para que este educando sinta-se a vontade para fazer uso de suas criatividades, tornando-se sujeito de sua aprendizagem mediada pelo educador (co-criação), como diz a seguinte citação de Marco Silva:
Diante deste panorama, procura-se refletir como favorecer o surgimento de uma mudança efetiva na relação professor/aluno para chegar à comunicação educacional baseada na interatividade, entendida neste estudo como uma forma comunicacional onde a transmissão de informações dá lugar à co-criação e, em vez da recepção passiva, é estimulada a participação, ao mesmo tempo em que se buscam mecanismos para que o professor procure coadunar a sua prática pedagógica à emergência desta dinâmica comunicacional. (2001)
Paulo Freire (1996, p. 27) já dizia que “aprender é um processo que pode deflagrar no aprendiz uma curiosidade crescente, que pode torná-lo mais e mais criador”.
É clara, portanto, a necessidade da formação continuada de professores, pela necessidade de se acabar com o paradoxo da divergência entre conceitos e práticas ultrapassados (ou mesmo inadequados) aplicados no cotidiano escolar e às necessidades de novas práticas docentes a caminho de uma nova educação.
Referências:
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996;
MORAN, José Manoel et al. Mediação Pedagógica e o uso da tecnologia. In Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica. Campinas: Papirus, 2000;
SILVA, Marco. Sala de Aula Interativa. Rio de Janeiro: Quartet, 2001;
VILARES, Ana Regina e SILVA, Marco. A Docência no Laboratório de Informática: Um Relato de Pesquisa. In Práticas Pedagógicas e Tecnologias Digitais. Organização de Edméa Santos, Lynn Alves. Rio de Janeiro: E-papers, 2006, p. 271-284.